Entidade que fiscaliza o dinheiro que circula na política demorou cinco anos para concluir que nada pode concluir sobre as contas da Iniciativa Liberal. Faltavam, por exemplo, dezenas de extratos bancários e demonstrações financeiras do então deputado único, João Cotrim de Figueiredo.
A reportagem do Exclusivo da TVI às contas dos principais partidos com assento parlamentar encontrou uma situação menos comum: o relatório enviado em dezembro de 2025 à Iniciativa Liberal (IL), referente às contas de 2020, recusou emitir qualquer opinião sobre as mesmas por concluir que as contas, na verdade, não foram prestadas – faltavam elementos essenciais.
Apesar de ser um partido recente, criado em 2017, esta foi a primeira vez que o primeiro relatório anual de avaliação das contas da IL chega a uma conclusão tão lacónica e negativa: “Estamos perante uma situação de contas não efetivamente prestadas”.
Na prática, continua o documento, “não é possível emitir uma conclusão sobre as contas apresentadas para 2020 em virtude da ausência do conjunto de demonstrações financeiras do deputado único na Assembleia da República [na altura, João Cotrim de Figueiredo era o único representante da IL no parlamento] e do suporte documental e contabilístico ao processo de prestação de contas”.
Por exemplo, após consulta da base de dados do Banco de Portugal, os auditores dizem que a IL não entregou extratos bancários de 31 contas de depósitos à ordem.
A IL tinha 30 dias para responder à ECFP e a pronúncia do partido, também consultada pela TVI/CNN Portugal, admite as falhas.
O documento assinado pelo actual secretário-geral da IL, Rui Ribeiro, confirma que o partido não conseguiu responder durante a fase de auditoria, mas justifica-se com a falta de recursos além dos previstos para a gestão corrente, numa altura em que existiam várias eleições em curso, acrescentando que ao longo de 2023 – ano em que receberam os pedidos de esclarecimento – a IL tinha em curso o processo de substituição do serviço externo de contabilidade.
Na pronúncia agora enviada, os liberais apresentam uma série de elementos e documentos que esperam que, passados cinco anos, permitam responder a todas as dúvidas, levando a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos a avaliar as contas da IL, agora, positivamente.
Por lei, além de coimas para os partidos e dirigentes, a não apresentação de contas partidárias anuais até ao fim do mês de maio do ano seguinte “determina a suspensão do pagamento da subvenção estatal a que o partido tem direito até à data da referida apresentação”, bem como a perda de benefícios a que os partidos têm direito como a isenção de impostos.
No distante ano de 2020, a Iniciativa Liberal indicou no resumo das suas contas que recebeu 197 mil euros de subvenções públicas.